No dia 29 de novembro de 2025 ocorreu a segunda edição da Criptainha, uma criptofesta em Florianópolis – SC. Esta edição, apelidada de novembrada – para marcar a histórica luta contra a ditadura na cidade – ocorreu fora do tradicional período da pesca da tainha, que vai de maio a julho. O que nos leva a perguntar: que mistérios trouxeram cardumes longínquos para os mares de Desterro em plena primavera?

O espaço:
Assim como na primeira edição, o encontro foi realizado no Instituto Arco-Íris, um espaço no centro que acolhe pessoas LGBTQIA+ e/ou em situação de rua e também funciona como espaço de prática e ensaio para diversos grupos culturais populares da cidade.

Na fala de abertura, o cardume organizador destacou a importância de espaços como estes na luta social da cidade, com o crescimento da violência institucionalizada por parte da atual da gestão da prefeitura contra as pessoas em situação de rua. Foi trazido a tona a questão do machismo estrutural, e lembrado do feminicídio de Catarina Kasten, convidando à reflexão sobre o assunto durante as atividades.

Esta edição teve como eixo central a autonomia tecnológica dos territórios e coletivos, resgatando este termo que politicamente nos é tão caro, em tempos de monoculturas, centralização e em face aos colapsos de diversas naturezas que ocorrem simultaneamente no mundão. Destacamos ainda que no momento da escrita deste relato, a grande Florianópolis submergia perante um ciclone extratropical.
O tema:

O fluxo das atividades:
O evento começou cedo, com um café da manhã na Mesa de Rango Compartilhado, com uma variedade de comidas gostosas como homus, focaccia, bananas, melancia, café e chimarrão. As tainhas foram se aproximando, e às 10h em ponto começaram as primeiras atividades, que aconteceram em paralelo nos dois espaços organizados para recebê-las.

Pela manhã, as primeiras atividades lançaram a rede sobre o tema, com o resgate de memórias de experiências autogestionárias de mídia livre, dos tempos das rádios livres e do Centro de Mídia Independente, trazendo relatos de coletivos locais. Em paralelo, na atividade sobre o Fediverso (junção de “federação” e “universo”), era apresentado um conjunto de tecnologias abertas e distribuídas para tecitura de mídias sociais de forma descentralizada.
Na sequência rolou uma apresentação sobre colonialismo digital, apontando como saída possível uma proposta híbrida que converge a ética ráquer e o pensamento decolonial de Frantz Fanon. Na outra sala, era apresentada a origem militar da Internet, apresentando os detalhes desta construção, e evidenciando os objetivos nada neutros e ingênuos do império dos EUA (que no momento da publicação deste relato, acabou de bombardear a Venezuela) como centrais para entender a rede que temos hoje.


Depois da pausa para o almoço, recomeçaram as atividades, com uma conversa sobre permacultura digital. Simultaneamente, como sequência do debate sobre colonialismo digital, foi detalhado como o Estado de Israel utiliza de alta tecnologia para vigiar e assassinar o povo palestino em território ocupado. Debate que envolveu algumas pessoas que estavam presentes no ato em solidariedade do povo palestino, que aconteceu mais cedo, próximo do local do evento.


As atividades seguiram tarde adentro, com um tratado sobre Ecomaquinologia (algo como uma ecologia ciborgue), e uma apresentação sobre a Rede TOR e a DeepWeb, resgatando como este último termo foi construído pela mídia ao longo dos anos.

Na sequência, ocorreu uma rica roda de conversa sobre Soberania Digital, abordando a retomada da Rede Pela Soberania Digital e sua atuação nacional. O debate destacou a conjuntura, apontando 2026 como oportunidade para fortalecer alternativas , na medida em que a bolha da IA e outras fraturas na hegemonia das Big-téquis comecem a aparecer.

Também rolou um bate-papo sobre tecnologias livres e educação, e como estes temas se relacionam em perspectivas emancipadoras relacionadas à ética ráquer e um resgate histórico do projeto Cybersyn, experiência pré-internet do governo socialista da unidade popular chilena, nos anos 1970.

Os últimos lances se deram por volta das 19h, mirando o futuro, com uma atividade que debateu o conceito de criptografia e privacidade na nossa era e uma feira de troca de sementes e debate sobre como as sementes crioulas podem ser vistas como um paralelo ancestral de tecnologias digitais livres.

Afinal, por que ainda fazemos criptofestas?
A primeira edição de criptainha ocorreu no inverno de 2019. De lá pra cá, o debate sobre tecnopolítica se expandiu para outros públicos. Houve também um acirramento da conjuntura nacional e internacional, com as máscaras dos donos das Big-téquis caindo na reunião de segundo mandato com Trump e a cumplicidade no genocídio palestino.
A ideia de realizar uma segunda edição do evento surgiu de uma centelha de empolgação, durante o Debian Day local que ocorreu no inverno deste ano. Ver um público considerável debatendo tecnopolítica em um sábado e com um foco na transformação social, fez com que o cardume se reunisse novamente para organizar uma nova edição desta criptofesta.
Encontros juntam pessoas com afinidades, botam as ideias para circular e disso podem sair desdobramentos interessantes. Esse é o principal motivo pelo qual ainda vale organizar criptofestas. Entre estas duas edições da criptainha tivemos uma pandemia, que acelerou processos tecnopolíticos, evidenciou o caminho do colapso causado pelo capitalismo e também nos mostrou a falta que faz realizar encontros.

Um evento simples – Como foi organizar a Criptainha
Repescando a “receita” bem completa da organização da primeira edição, pouca coisa mudou.

Reforçamos que:
* Uma lista de e-mails continua sendo um meio eficiente de organizar atividades, bastando disciplina. Desta vez não foi necessária nenhuma reunião síncrona para organizar, e a ferramenta crabgrass (we.riseup.net), também não foi necessária.
* Poucas pessoas com afinidades, que sabem trabalhar juntas, conseguem organizar uma criptofesta.
* Comida é fundamental. A Mesa de Rango Livre faz toda diferença para juntar o cardume.
Uma melhoria considerável em relação à primeira edição foi termos um espaço dedicado para crianças, a qual chamamos carinhosamente de Espaço para Alevinos. Agradecemos de coração à tainha que se voluntariou para cuidar deste espaço, bem como às tainhas que contribuíram com material e dividiram seu tempo nos cuidados com as crias.


Grana
Foram gastos cerca de 700 reais.
Destes, 500 reais foram gastos para bancar a vinda de uma tainha que propôs atividades. O restante foi gasto com papelaria, material para alevinos e impressões.
Avaliação:
Consideramos que foi uma ótima edição da criptainha. Juntou bastante gente, nosso ‘vigia‘ contabilizou cerca de 100 tainhas que passaram pelo evento. A qualidade dos debates também foi boa, envolvendo temas atuais e instigantes.
Um ponto que nos chamou atenção foi a ausência de coletivos organizados propondo atividades. Elas partiram de indivíduos que não se identificaram como participando de um coletivo, e isso nos pareceu ter ocorrido mais nas últimas edições da Criptorave também.
Algo que sentimos falta nesta edição foi de atividades práticas. Não tivemos “instalagens” de softwares, experimentações ou mesmo dinâmicas.
Também não tivemos nenhuma atividade sobre Inteligência Artificial, o que atualmente é um milagre!


Com relação ao espaço, na maior parte do tempo o arco-íris funcionou bem. Entretanto, no final da tarde começou o samba na travessa, e a falta de isolamento acústico acabou prejudicando as atividades. É algo que precisa ser melhor pensado numa próxima edição.
Atividades em paralelo também é algo que talvez seja interessante rever, dado que acabou dividindo os públicos. Quem sabe dois dias de Criptainha em 2026?
Sobre a organização das atividades durante o evento, sentimos falta de maior iniciativa das tainhas que não estavam no cardume organizador, para pegarem junto no espaço. Passar o café ficou na mão de poucas tainhas, por exemplo. Talvez tenhamos que lembrar o caráter autogestionado do evento nos intervalos das atividades, para fortalecer essa cultura.

Considerações finais:
Ainda vemos um potencial grande para organização de criptofestas locais.

Em Florianópolis pudemos constatar diferentes pessoas estudando e botando em prática a tecnopolítica, só faltava um chamado para juntar o cardume.
Algo que reforçamos desde a primeira criptainha, ou mesmo na CripTRA (que nos serviu de inspiração), é que não precisamos ter grandes pretensões para organizar uma criptofesta. Podemos fazer um evento pequeno, e está ótimo! Não precisamos “mirar” na Criptorave para fazer um bom encontro.
Também podemos organizar atividades bacanas sem depender de instituições (partidos, ONGs, governos). Para além da nossa visão política, essa lição também traz um grande pragmatismo. Retomemos o espírito do “faça você mesma”!

Como na primeira edição, também consideramos importante compartilhar o conhecimento acumulado, e nossas dúvidas e angústias com a organização deste evento. Esta transparência pode ajudar em um processo de aprendizagem coletiva, na identificação de problemas e soluções comuns e também na consciência de que a forma que nos organizamos diz muito sobre o tipo de sociedade que desejamos.

Façamos mais criptofestas!
Que venha a Criptainha 2026!
Cardume Organizador da CripTainha 2025
Agradecemos as tainhas que enviaram fotos ou fragmentos de texto que ajudaram neste relato.





